A influência invisível e o longo prazo

Caríssimos,

Há uma pergunta que tem andado aqui na parte de trás da minha cabeça nos últimos dias, e a resposta para ela não a vou ter tão cedo, provavelmente chegará apenas daqui a 10 ou 15 anos, provavelmente este deverá ser o tempo necessário para perceber o seguinte: Será mais robusta a estratégia de ter focus quase exclusivo em fazer produto de excelência? Ou é mais robusta a estratégia de ter, praticamente, apenas focus em bom marketing?

Ficam de parte aqueles que tanto têm um produto de excelência, como bom marketing… Também, não me parece que sejam assim tantos quanto isso.

Gosto de olhar para os produtos que se vendem sem marketing e para os produtos que se vendem maioritariamente só com marketing. A longo prazo, qual será a estratégia mais válida?

Bom produto vs Bom marketing

Parece-me que os grandes vinhos portugueses estão cada vez mais colocados em dois domínios diferentes. De um lado, vemos as pequenas produções em que o autor, criador e executor, tem tempo para cada detalhe daquilo que quer ver sair da sua adega, e do outro lado, vemos, por oposição, vinhos que aparecem como que preparados para atingir um resultado final definido, um produto desenhado e massificado por uma marca que passou a ser mais do que um nome, mais do que um logo, uma marca que através da imagem tenta passar um conceito de exclusividade. Mas que parte desta massificação é efectivamente produto exclusivo? Toda não pode ser… É impossível…

Fica já aqui colocado de parte o lugar comum de que quem não se sabe vender, quem não se sabe promover, não tem futuro. Este tipo de ideia tem tanto de certo como de básico, além disso é muito obtuso, não considera todas as variáveis, porque nem só de marketing está dependente o sucesso. O marketing oferece uma significativa ajuda no sucesso, mas não é tudo.

Perseguir a tendência vs Criar a tendência

Alguns produtores estão constantemente atentos ao mercado, interpretam as tendências e vão atrás delas, ajustam o produto para aquilo que é a linha de consumo nessa fase, fazem o desenho dos seus vinhos depender da tendência do consumidor. Mas será o consumidor suficientemente conhecedor para que essa tendência seja duradoura?

Outros produtores, sobretudo os pequenos, os artistas, criam tendências. Algumas são depois adoptadas em pequena escala, em nichos e outras conseguem ser adoptadas em larga escala. Quando adoptadas em larga escala essas tendências passam a ser alvo de estudo, e os produtores, com estratégias assentes em marketing, alteram o produto, uma vez mais, de acordo com as tendências.

Provavelmente existe um lado negro nos criadores de tendências, aqueles que trabalham só com produto e para o produto… Sem marketing, alguns podem ficar pelo caminho. Os que aguentam, a meu ver, fazem os produtos de excelência, vão ser a referência, são os grandes vinhos portugueses.

E depois do marketing?

Os que usam o marketing, garantidamente ficam com maior probabilidade de sucesso, têm produto bom e produto assim-assim, não interessa, o marketing vende tudo. O problema é a fase seguinte ao balanço dado pelo marketing, posteriormente será preciso focus na melhoria contínua do produto, é preciso assegurar o longo prazo. Tenho visto casos em que me parece que a essência de certos vinhos efectivamente não permite levar o produto até ao patamar promovido pelo marketing… Parece não haver método ou matéria-prima para suportar essa promoção. Será que aí o longo prazo fica comprometido? Ainda não sei a resposta, mas para já, parece-me que sim.

Ontem vi vinhos caros, de uma marca que criou uma imagem de exclusividade, mas que apresentou vinhos demasiado caros para aquilo que efectivamente conseguem exibir. Existem por aí pequenos ateliers que fazem vinhos da mesma gama de preços, mas com qualidade incomensuravelmente superior.

Ontem vi o grande erro do consumidor português… Um erro que serve depois de input para o actual marketing de vinhos: Se é caro, é porque é bom.

Concluindo…

O marketing foca-se nas pessoas, no comportamento das pessoas, lê as pessoas, descodifica tendências comportamentais. E é aqui que o marketing de vinhos aprendeu a grande tendência dos últimos 10 anos em Portugal: o consumidor português na sua maioria “não merece” os vinhos que tem… O consumidor português na sua maioria bebe rótulos, e não vinhos.

O real preço de um vinho é aquilo que eu estou disposto a pagar por esse vinho. Há pessoas que pagam aquilo que esse vinho é para elas na realidade e há pessoas que pagam aquilo que esse vinho significa de acordo com o resultado do marketing que lhe esteve associado. Os primeiros sabem o que estão a comprar, os segundos não. Os primeiros compram o interior, os segundos compram o exterior.


photo credits: http://www.civiltadelbere.com/digital-marketing-del-vino-nuovi-social/

Saúde,
Dr. Ribeiro

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Prova

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