A minha terra era piada, agora é adorada

Caríssimos,

As provas da Garrafeira Imperial oferecem como poucas momentos de agradável surpresa que bastantes vezes se transformam em dúvidas, interrogações, interpretações e perspectivas que me fazem sair de lá quase sempre com vontade de falar delas.

Portanto, aqui fica algo que me apetece dizer sobre a minha terra, sobre a Bairrada.

Uma prova de vinhos Luís Pato que é o espelho exacto daquilo que é hoje a Bairrada

Falar da prova dos vinhos Luís Pato levados na passada Quinta-Feira à Garrafeira Imperial é falar, na mesma medida, da Bairrada. Tudo o que aconteceu na prova é exactamente aquilo que vejo nos vinhos da minha terra.

Existe nos vinhos da Bairrada um hiato bem visível entre aquilo que são os entradas de gama (e também gamas médias) e a exímia qualidade apresentada por alguns topos de gama conseguidos em “anos de sorte”, anos dependentes das vontades de S. Pedro. Salvo raras excepções, os vinhos da Bairrada até às gamas médias continuam a não conseguir empurrar para o lado muitos vinhos de igual valor de outras regiões.

O “problema” é quando chegamos às gamas altas. Sejam Reservas, sejam Garrafeiras, sejam Sublimes, neste patamar os vinhos bairradinos não só empurram grandes referências nacionais, algumas sempre bem publicitadas claro, como as arrebatam por completo. A Bairrada pode fazer os melhores dos melhores, mas claro, sempre à imagem do que é aquela região, “poucos hectares juntos em vinhas de dimensões reduzidas”… Poucos, mas muito bons. É precisamente isto que são os topos de gama da Bairrada.

Há algumas semanas pude fazer um comparativo interessante na Vinhos e Sabores 2018. Percorri em prova 11 colheitas Reserva Especial da Casa Ferreirinha, conheci ainda 13 vinhos de 2008 que foram apresentados como sendo alguns dos melhores tintos portugueses daquele ano, conheci também, verdadeiramente, aquilo que é a Casa de Saima. Vi nesta última prova, o que lá se fez há muitos anos atrás, o que já se está a fazer e, mais importante ainda, vi sinais daquilo que sairá no futuro… Esta última prova foi soberana face a todas as outras, foi uma revelação sempre sob o registo do perfil dos topos de gama bairradinos… Poucos, mas muito bons.

O Quinta do Moinho Tinto 2001 fará daqui a “nada” 20 anos. E!?

Esta prova de vinhos Luís Pato vai deixar-me cravado na memória um vinho, só um… Mas é um colosso. O Quinta do Moinho 2001 é tudo aquilo que a Bairrada é, parece “só” um vinho entre muitos, parece “só” um ano entre muitos, nada aparentemente significativo, nada muito quantificavel, parece pouco… Mas este é dos melhores entre os melhores. Este tinto de 2001 “mete no bolso” qualquer um daqueles de 2008 provados agora em 2018.

Este vinho foi feito numa altura em que a Bairrada não era entendida, foi feito numa altura em que a Bairrada era piada para uns e indiferença para outros, foi feito numa época de provável reduzido know-how nos fazedores de vinhos bairradinos e também reduzida qualidade de quem os consumia.

Este vinho como agora está, devia percorrer o mundo, merece. Se o fizesse, a Bairrada não seria mais o que hoje de certa forma ainda é.

A Bairrada era piada… Agora é adorada…

A Bairrada já não volta atrás, houve um volte-face na maneira de trabalhar que ajudou à imagem que hoje em dia já se criou em torno dos vinhos bairradinos. Os Baga Friends, a certificação Baga Bairrada, algum sangue novo e algum agitar de aguás fez com que finalmente aquilo que ali é inigualável e incomparável ganhasse um lugar ao sol.

Ouvi, na prova de vinhos Luís Pato, muitos enófilos brasileiros afirmarem: “Esta é a minha região favorita, são os meus vinhos favoritos”.

Quem diria há 10 anos atrás que hoje estaríamos a ouvir comentários destes?


Saúde,
Dr. Ribeiro

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