Fotografias, revistas e vinhos

A fotografia

Imagino que uma fotografia implique sair à procura de algo que, na grande maioria das vezes, está oculto. Pode à partida existir uma ideia do que se quer “capturar”, um alvo, mas a eventualidade de durante o caminho esse alvo ser colocado à nossa frente está fortemente ligada à sorte. Provavelmente, na grande maioria das vezes, a idealização daquilo que se quer fotografar caminha em paralelo com a incerteza de que essa intenção se efective.

Imagino que fotografar implique estar significativamente dependente de uma sorte que nos coloque no sítio certo, à hora certa. Mesmo que a procura de algo para fotografar tenha à partida um formato final ambicionado, provavelmente, na grande maioria das vezes, são momentos fortuitos que originam a melhor fotografia que se tirou até então.

Nos vinhos é igual. As grandes experiências com vinhos implicam estar no sitio certo à hora certa e sem formato final ambicionado.

As revistas

As revistas têm um mérito perverso, conseguem determinar as escolhas de vinhos feitas pelos consumidores. Praticamente tudo aquilo que se coloca na mesa é porque alguém lhe deu determinada nota ou porque ganhou determinada medalha. Sem querer comparar os custos destas duas paixões, seja no método, seja no resultado final, procurar vinhos é antagónico a procurar fotografias. Isto porque, nos vinhos são raros os aventureiros que vão à procura de um alvo no meio de tanta incerteza, é mais seguro seguir o conselho de um “expert”… Nos vinhos, na grande maioria das vezes, esse alvo já foi definido numa página de revista. Infelizmente!

Há poucas semanas provei um espumante. Esse espumante não representava nem de perto aquilo que de melhor se faz na sua região, mentia na qualidade que lhe deveria estar associada atendendo ao seu preço. Quatro dias depois vi esse espumante com nota de 17,5.

Muitas vezes preparamos momentos e experiências assentes em determinados vinhos, os quais, sem percepção disso, nos foram implantados na mente por notas de “experts”. Posso dizer que, para mim, praticamente todas as vezes que fiquei “amarrado” a um vinho foi graças a um momento fortuito… Foi devido à sorte de estar no sítio certo, à hora certa e com as pessoas certas, que um vinho se transformou numa experiência inesquecível.

Esse vinho que me estava a tentar dizer algo que outros não conseguiram dizer, não saiu de uma nota de revista, saiu do acaso. Na fotografia é igual.

Os vinhos

Para mim, os vinhos conseguem algo raro, conseguem imortalizar um determinado momento. Como na fotografia, determinado vinho pode tornar um instante intemporal. Essa é a beleza disto… Ainda hoje me lembro de certas refeições porque me lembro da “fotografia” que o vinho ajudou a tirar, lembro-me das pessoas… Graças a essa “fotografia”.

Os vinhos têm um poder raro, podem tornar completo determinado momento de partilha, seja uma refeição, uma conversa, uma visita, um convívio. O vinho ajuda a “fotografar” esses momentos e a fazê-los perdurar.

No entanto, uma fotografia pode ser irrepetível, assim como um vinho o pode ser. Os vinhos podem sofrer das mesmas condicionantes da fotografia, dois vinhos iguais em momentos diferentes podem ser entendidos de forma diferente também.

Ao contrário do que dizem as revistas, no final, o melhor vinho não é o mais caro ou o mais bem promovido. O melhor vinho é aquele que na nossa mente deixa a melhor “fotografia”, aquela que fica presa a nós partilhando o mesmo espaço das recordações mais importantes.


Saúde,
Dr. Ribeiro

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Prova

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