Glamour esquisito, para não dizer parolo

Caríssimos,

Algo que há muito tempo me dá que pensar: De que forma vemos o espumante, como o consumimos, o que esperamos desta bebida e que entendimento temos dela?

De longe, o espumante é a bebida mais versátil que podemos encontrar e felizmente em Portugal temos espumantes cada vez melhores. Mas incrivelmente, enquanto país, aquilo que sabemos e queremos do espumante está ainda muito afastado do patamar qualitativo que esta bebida já conseguiu alcançar.

Enquanto consumidores sabemos muito pouco e perante o pouco que sabemos gostamos também de inventar. Por vezes parecemos ter até uma queda crónica para a parolice.

Saber o que é espumante

Por sorte, cresci numa zona onde o espumante é rei. Ser da Bairrada implica saber desde muito novo alguma coisa sobre espumantes, saber onde, quando e como deve ser consumido. A região sempre ofereceu muito a estes vinhos, mas os últimos anos obrigaram a Bairrada a pensar mais alto. Felizmente a região acompanhou a exigência dos tempos e alguns patamares foram subidos. Infelizmente esta exigência vem de locais de consumo muito específicos e não de uma clara dimensão nacional.

Tirando alguns casos pontuais de consumidores mais esclarecidos e que felizmente são cada vez mais, ser bairradino significa conseguir entender como poucos a prateleira de espumantes de um supermercado. É inegável que a maioria das pessoas que crescem fora da Bairrada olham para uma prateleira de espumantes e ficam perdidas: O que é um Bruto? Um Extra-Bruto? Ou um Doce? Ou um Meio-Seco? O que é o Método Tradicional ou o método Charmat? Mas ainda mais importante, o que é um bom espumante?

O entendimento do consumidor português sobre o que deve ser o consumo de espumantes e quais são os bons espumantes que temos no mercado, é mau. Mas as prateleiras dos supermercados são ainda piores. São horrendas… Quanto a isso, já lá iremos.

A versatilidade do espumante

Um bairradino entende isto: O espumante é das poucas bebidas, ou provavelmente a única, à qual muito raramente dizemos “não me apetece”.

A introdução do espumante em qualquer momento do dia é fácil e nenhum outro tipo de vinho consegue ter esta abrangência. Mas o espumante é mais do que versatilidade para os vários momentos do nosso dia, é também versatilidade para a mesa. E é aqui, na mesa, que esta bebida se mostra como uma campeã plurivalente.

Com entradas, com alguns pratos de peixe, com alguns pratos de carne, com leitão, com sobremesas, não existe nenhum tipo de vinho que chegue a tantos tipos de pratos como chega o espumante.

Mas existe também algo acima da comida que este vinho ampara como poucos, a conversa e a boa companhia transcendem-se quando acompanhadas por um bom espumante.

É ideia generalizada por todo o país que o espumante é para a festa e para o brinde. Um espumante pode ser festa e pode ser um brinde a qualquer coisa, mas também o Vinho do Porto o pode ser, ou o Vinho Madeira. Antes de ser festa o espumante é na verdade uma bebida de convívio quotidiano, é uma das melhores formas de se aconchegar uma conversa, uma visita de alguém.

A imagem dos espumantes é tão horrenda como o nosso entendimento desta bebida

As prateleiras de supermercado são uma salganhada de rótulos intragáveis, designs horríveis que tentam apelar à festa e ao brinde, imagens que em 2019 já não deveriam sequer existir.

Poucos têm sido os produtores que têm usado a inovação de imagem para afastar o espumante do conceito que temos enraizado no consumidor português. Este, continua a não entender o espumante, o que é, para que serve… E também ninguém ajuda.

A maioria dos rótulos continuam antigos e pirosos e depois vemos surgirem algumas “inovações de imagem” que continuam a apelar à festa, mas que, no final, se ficam apenas por um glamour saloio. Será que o espumante só se vende se for associado ao glamour?

Felizmente, temos também alguns casos isolados de brilhantismo de inovação de imagem e que, a meu ver, são o veículo ideal para o espumante descolar daquilo que ele hoje representa. Existem já no mercado imagens bonitas, sóbrias, simples, limpas. Acima de tudo vinhos bons e com uma imagem bastante apelativa. É disso que os espumantes precisam.

A percepção que os portugueses têm dos espumantes que por cá se fazem e a intenção com que os consomem, são análogas à beleza da maioria dos rótulos das garrafas, ou seja, é um glamour esquisito, para não dizer, repita-se, parolo.


Saúde,
Dr. Ribeiro

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