No continente, estamos a matar os bons vinhos baratos portugueses que ainda restam

Meus caros,

O caminho que pode estar a ser preparado para os vinhos baratos portugueses, sobretudo para os bons e baratos, antecipa-lhes um final triste.

Temos visto, cada vez mais, aparecer no continente português, um novo conjunto de vinhos que se subdivide em duas categorias: Premium e Signature. Estas referências surgem com PVP’s teóricos posicionados numa gama de preços que já não será muito acessível à maior parte dos consumidores. Novos vinhos que estão o ano inteiro com 70% de redução no PVP, que aumentam em quantidade de ano para ano, a uma velocidade incrível. Pergunto mesmo se daqui a três anos haverá, nas gamas mais baixas, vinhos que não sejam Premium e Signature.

Conto-vos uma história, em França foram apreendidas milhões de garrafas daquele que é provavelmente um dos vinhos mais difíceis de contrafaccionar em todo o mundo, o champgne. Foram apreendidas milhões de garrafas de champagne que tinham lá dentro vinho espanhol. Nisto os espanhóis são campeões e nós, por cá, não estamos imunes a este logro. Eu já vi camiões cisternas de vinho espanhol à porta de Caves/Herdades/Quintas portuguesas, conheço muita gente que também já viu camiões com o mesmo “líquido” espanhol à porta de outras Caves/Herdades/Quintas.

É ponto assente que vinho a granel espanhol está a entrar em Portugal, cada vez mais. Por agora, parece estar a atacar uma fatia de mercado que é o terreno perfeito para a aldrabice, isto é, os vinhos baratos, os entrada de gama mais baratos. Ora, é aqui que entra a inteligência portuguesa, passámos a criar referências Signature e Premium, referências que se repararmos bem, saem completamente fora do portefólio das quintas que as engarrafam. Alguns destes vinhos nem são publicitados nos sites desses engarrafadores e todos eles têm um ponto em comum, praticamente todos eles não valem um chavelho. Serão efectivamente vinhos portugueses?

O consumidor português ainda acredita que 50 vinhos, divididos sob as mesmas duas categorias, Signatures e Premiums, todos com 70% de desconto, são boa escolha. Pior, o consumidor português acredita cada vez mais nisto, porque estas referências não param de aumentar.

Sabem o que estamos a fazer? Estamos a matar os bons vinhos portugueses, os baratos e bons. Estamos a prejudicar os portugueses que produzem bem e barato. Esses vão desaparecer das prateleiras porque deixam de ser opção. Ficaremos reduzidos a uma gama baixa povoada por vinho duvidoso e que provavelmente não é português.

Vi hoje um texto escrito por uma jornalista de vinhos, em que ela diz que não há no mundo, vinho barato e bom como há em Portugal. Será que vai ser assim durante muito mais tempo?

Vi um texto escrito no Expresso, em 2018, onde um jornalista de vinhos considera que o vinho francês contrafaccionado com vinho espanhol não entra em Portugal, porque o consumidor português, habituado a vinho barato, não tem propensão para comprar vinho francês que é sempre teoricamente mais caro, não ficando assim exposto ao engano. Pois bem, esse vinho espanhol poderá não ter entrado cá com rótulo francês, poderá ter assumido sim rótulo português.

Por vezes, penso se esta estratégia ficará apenas pelos vinhos mais baratos. Provavelmente por enquanto sim, mas depois da aldrabice se enraizar, pode-se espalhar. Cuidado, estamos a derrubar bons produtores portugueses que não conseguem competir com este logro.


Saúde,
Dr. Ribeiro

 

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