Novos e velhos influencers

Influencers que misturam o “fake it until you make it”, com “poesia engarrafada”. 

O que é um influencer?

A palavra influencer é dita em tom jocoso e utilizada de forma a rotular apenas uma geração mais nova, aquela que utiliza as redes sociais para subsistir promovendo algo. Eu por acaso até concordo com esse tom jocoso. Mas existem também influencers de outros tempos, mais antigos. Esses também influenciavam, só que era de outra forma.

Algo que é muito comum aos novos influencers são os chavões, o uso do “último grito” em frases batidas, que têm uma vida finita e muitas vezes renovam-se para uma nova frase que contradiz o conceito defendido anteriormente. Existe um chavão que é moda nos influencers mais recentes: “Fake it until you make it”. Isto para mim significa batota, atalhar caminho, significa que qualquer coisa vale para que se subsista a fazer algo. Odeio esse conceito, mas, hoje em dia, é o que mais se vê por aí.

Existe também uma frase muito conhecida, mítica nas paredes de garrafeiras e winebars, um daqueles chavões clássicos que tentam puxar romantismo e eruditismo para o mundo dos vinhos: “O vinho é poesia engarrafada”. Esta frase tenta colocar o vinho num patamar que… Enfim… Todos sabemos que a maioria dos românticos que a lêem, dois segundos depois esquecem-na e vão procurar vinhos com mais de 90 pontos Robert Parker, ou com um Grand Or no Concours Mondial de Bruxelles.

Parece-me que poesia não será pontuada, nem balizada e nem reduzida a quinze palavras e dois dígitos. Por isso o vinho não deve ser poesia, porque se fosse, o vinho seria explicado, ao invés de ser colocado num sistema métrico ou sujeito a uma medalha de entre as quatro disponíveis.

A “poesia engarrafada” choca de frente com o “fake it until you make it”… E não se misturam. A primeira remete para algo que exige de nós tempo, atenção, dedicação, tentativa e erro. O segundo conceito é o do desenrasca, do imediatismo, do tentar fazer por parecer muito, sem se gastar demasiado.

Imprensa clássica vs Lifestyle. Os antigos e os novos influencers.

Não podemos criar uma fronteira entre um tempo em que não existiam influencers e um tempo em que eles brotaram aos milhares. A influência antiga existia da mesma forma que existe a influência moderna, o mecanismo de disseminação da mensagem é que actualmente é outro. Contudo, a meu ver, essa influência antiga era tão manipulável como é agora a mais moderna. O ser humano ainda é o ser humano, não mudou.

Estamos a viver tempos engraçados porque vemos uma mistura de dois tipos de influencers. Não sei se os mais novos estão a ganhar terreno aos mais antigos, mas se estão, então a coisa está negra… Os mais velhos, os da imprensa escrita, investigavam, pelo menos conheciam parte da raiz do que falavam, muito ao contrário da superficialidade que os tempos modernos trouxeram.

Mas no final do dia as pessoas continuam a ser usadas e a pedirem para ser usadas, vale tudo para que determinada marca consiga furar este mundo tão competitivo. O maior problema é que, aquilo que actualmente é preciso destes novos influencers, tem tanto de moderno como de oco. Só lhes é pedido que desenrasquem umas fotos com uns chavões vazios de conteúdo e uns emojis. O que mais me entristece é que esta realidade é transversal a várias áreas.

Já quase não há mensagem, não há ensinamentos, não há nada que mude ou tente mudar de forma saudável aquilo que pensávamos ser o correcto. Cada vez mais é pedido uma imagem que faça as pessoas sonhar estar lá, ou ter aquilo, já não há lugar para a explicação e muito menos haverá para a história completa. Vejo um imediatismo e uma simplificação nos vinhos que os aponta para uma certa banalização e a forma enganadora como são promovidos, incorpora-lhes também alguma inverdade.

Os vinhos são uma mensagem e a disseminação desta tem estado exposta às notas de um guru, ou às notas de outros gurus locais, menores. Esta mensagem está desvirtuada há muito tempo, não é só culpa do actual imediatismo e dos novos influencers, os mais antigos também ajudaram.

Actualmente, as pessoas não se apercebem que o que vêm não é real, não querem saber que a influência é feita através de uma foto tirada em menos de um segundo quando, uma garrafa, pode esconder uma história de anos. Ler um vinho implica curiosidade, procura, descoberta e muitas vezes desapontamento.

Gosto de falar de vinhos, não gosto é da forma como se fala.

Não sou muito fã de redes sociais, mas também, não há outra forma. As redes sociais oferecem a forma mais fácil de fazer o transporte da mensagem entre emissor e destinatário. As redes sociais cumprem com o que hoje é pedido, em vez de ser o destinatário a ir à procura, essa mensagem é-lhe oferecida sem exigência de esforço de pesquisa. Cada vez mais, as pessoas querem que as coisas lhes sejam mostradas numa foto, nada mais que isso.

Isto não deveria soar ao que não é… Não é uma zanga. É uma crítica que vale o que vale e não vale mais do que a quantidade de pessoas que possam concordar com o que aqui está.

Carlos Paredes dizia: “Gosto demasiado da música para viver às custas dela. As pessoas gostam de me ouvir tocar guitarra, a coisa agrada-lhes e elas aderem. Não há mais nada”.

Claro que não se deve ser utópico ao ponto de não ter críticos de vinhos que não sejam pagos pelo sector. Os bons profissionais têm de estar dentro do sector, quer venham ou não do próprio sector. Os bons profissionais devem ser pagos para fazer o que mais ninguém faz. Mas o que temos hoje é uma enorme quantidade de penduras face a alguns, poucos, que ainda fazem a coisa bem feita.

Adoro falar sobre vinhos, com família, amigos, colegas de trabalho… Não acho que se devam seguir à risca as palavras de Carlos Parades, mas estas, quero que sejam sempre um farol aceso e apontado para o caminho que ainda há pela frente.


Saúde,
Dr. Ribeiro

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Prova

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