O “fora da caixa” e a vaidade da falsa imperfeição

O termo “fora da caixa” entrou há pouco tempo no léxico vinícola e parece-me que é cada vez mais utilizado por consumidores que tentam explicar um vinho diferente. Parece que quando se quer ser muito diferente, apenas o termo diferente não chega, é aí que aparece o “fora da caixa”, um termo que em si, tal qual ele está, é e será sempre, oco.

O primeiro problema deste termo é que quanto mais ele tem sido usado, mais ele aponta para todas as direcções que pode apontar, uma coisa que seria teoricamente “fora da caixa”, ou seja, desigual, passa assim a apontar para muitos sítios. Eu diria que, provavelmente se algo aponta para tantos sítios diferentes, deixa de ser “fora da caixa”, passa a ser usual, passa a ser a caixa.

Se estivermos a falar de um vinho “fora da caixa” dentro de um universo de vinhos bem feitos, então esse vinho seria mau. Se estivermos a falar de um vinho “fora da caixa” dentro de um universo de vinhos mal feitos, então esse vinho já seria bom. Mas se o universo de vinho contém escolhas más, boas e muito boas, os vinhos “fora da caixa” representam o quê?

Este termo aplicado aos vinhos, sempre foi e sempre será um chavão utilizado quando não se conseguem melhores palavras para o que se está a provar, é um chavão que apenas procura divergência da normalidade, mas sem concretizar, porque ser-se diferente está na moda e a diferença está a ser procurada efectivamente e fortemente, a qualquer custo… Mesmo que esse custo seja a competência e a qualidade.

O problema não é existirem chavões como este, aliás, nunca será um problema, é que chavões são como as modas, vão e vêm, o problema foi o salto que se deu de um chavão oco como o “fora da caixa”, para algo que, a meu ver, é terrível para o vinho.

Era uma questão de tempo até dar asneira.

O vinho em Portugal potencia uma faceta perversa que praticamente todos temos, só que uns vão lutando para a perder, ou no limite, vão tentando abafá-la não a deixando aparecer muito, outros porém elevam essa faceta a níveis circenses. Por exemplo, um dos cinco enochatos com quem discuto vinho diariamente, há meia dúzia de dias atrás, enviou-me uma foto de um exibicionista a criticar o exibicionismo.

O objecivo maior desta faceta perversa e diga-se, muito tuga, é o poder afirmar algo parecido com isto: “Eu entendo algo que vocês não entendem”. Ou: “Só nós é que entendemos isto e vocês, a maioria, nem pensar que o possam entender também”. Para estas personalidades deve ser brutal o prazer de se sentirem nicho, de se verem no meio do nicho.

Em Portugal devemos ter 80 – 90% de vinhos semelhantes a vinhos bag-in-box e depois, alguns silos de vinhos dedicados a nichos que se acham melhores que todos os nichos vizinhos. Isto não teria problema nenhum… Aliás, na verdade não tem mesmo problema nenhum, estes silos até são bem-vindos. Vejamos, há os silos normais, os “naturais”, os biodinâmicos, os biodinâmicos certificados, os biológicos e os biológicos certificados, e, para tudo isto, se existe um silo, é sinal que há mercado e que a coisa se vende, é sinal que há dinheiro para quem trabalha. Logo, os silos não são e nem serão alguma vez o problema.

O problema está nesta nova vaga vinda da velha intenção de procurar sempre novos silos, sempre mais diferentes e sempre apenas entendidos por muito poucos. Porque o exibicionismo tem de ser sempre diferente e feito por poucos, se for banal e feito por muitos, não é exobicionismo.

Quem fala comigo atura-me porque sabe que eu não gosto da expressão “fora da caixa”, sempre achei que essa expressão iria trazer algo mau. E trouxe. Estes novos silos de “connaisseurs” já começam a usar este termo para justificar o erro e a imperfeição, eu já o vi escrito e infelizmente não apenas por quem compra vinho, mas também por quem faz vinho. E é aqui que está o problema.

Acho que há um tempo atrás o ser-se diferente e imperfeito trazia consigo uma certa humildade, mas agora não, agora esta diferença é utilizada em tom de superioridade. A imperfeição agora é usada como bandeira e isso não faz rigorosamente sentido nenhum. Chegámos ao cúmulo de dizer que a imperfeição é mais perfeita que a perfeição… Isto está escrito, eu vi isto escrito e não faz qualquer sentido, é uma salganhada de palavras sem qualquer suporte lógico, é terrível.

Caríssimos, a imperfeição é o nosso dia-a-dia e a perfeição não existe, mas acho que todos entendemos que o caminho normal é tentar limar arestas em direcção à perfeição. O caminho não pode ser fazer a apologia da imperfeição e colocá-la num patamar superior à perfeição. Esta troca de palavras que eu já vi muitos fazerem, entre imperfeição e perfeição, se tiver êxito e creio que o está a ter, é tristemente “genial”. Quando na teoria se tenta vender o menos perfeito em detrimento do mais perfeito, na realidade, na prática, estão a fazer a apologia do erro em detrimento da competência.

E como se vende um vinho “fora da caixa”, ou por outras palavras, imperfeito? É aqui que entra a genialidade da coisa.

Existe um aproveitamento muito oportuno desta necessidade de procurar a diferença a qualquer custo, mesmo que essa diferença pise terrenos de imperfeição, é aí nesses terrenos que a imperfeição é depois tornada moda e é renomeada para algo “fora da caixa”. Para isso, basta trabalhar o preço dos vinhos muito bem trabalhado, sem esquecer a imagem claro e os canais de difusão, os canais certos com as pessoas certas e com as palavras certas, depois, é só deixar a magia acontecer, é só deixar o “connaisseur” português tratar do resto com a sua sede de exibicionismo. O dinheiro sempre conseguiu tornar o defeito em feitio, não é novidade.

Hoje em dia, parece ter sido pervertido e levado ao extremo o conceito de não vender só vinho e vender marcas, nomes, imagens, conceitos. O vinho por vezes parece ser um mero acessório para que alguns consumidores se consigam afirmar eles próprios, como alguém “fora da caixa”.

Só que é precisamente aí que entra a genialidade destas marcas, quando alguém vende uma marca, um nome, um conceito e não o vinho pelo vinho, consegue vender todos os vinhos debaixo desse nome. Pelo menos enquanto o nome for moda, os vinhos estão protegidos. Já aqueles que vendem o vinho pelo vinho e lá no meio têm um grande vinho, mas que não têm o nome, nunca verão esse grande vinho ser colocado onde merece.

O nome certo, a marca certa, quando dita imediatamente antes da prova, consegue abrir mentes e ganhar um espaço que por vezes a competência do vinho não conseguiria ganhar. O desconhecimento e a azelhice encontram sempre conforto na marca, no nome, só assim conseguem mitigar a incapacidade de exigir do vinho.

O terrível fica ainda pior quando em vez de andarmos a explicar o que são trabalhos bem feitos, andamos a fomentar o aparecimento de silos cada vez mais esquisitos. E a imprensa tem muita culpa nisto.

Está na altura de parar de fomentar a pseudo-perfeição que se força em vinhos imperfeitos. Se o vinho tem um erro, na sua descrição não deveria aparecer o termo perfeição.

Está na altura de parar de defender a existência de vinhos imperfeitos, sobretudo quando os vinhos são bons, melhores que os outros. Chamar a um bom vinho de vinho imperfeito, é falsa modéstia, é vaidade e é a procura de se ser “fora da caixa” a qualquer custo. Mais, se continuarem a chamar de imperfeitos a vinhos que são bons, estão a fomentar que qualquer tipo com dinheiro e que faça um vinho esquisito o vá publicitar para uma revista como sendo um “fora da caixa perfeito nas imperfeições”.

É genético, é cultural, é nosso, esta pseudo-perfeição que querem extrair á força da imperfeição obtida, resulta apenas num país que vive para exibir sem questionar, porque qualquer exigência que fosse feita a essa pseudo-perfeição, fazia-a cair na hora. Falta-nos isso, falta-nos exigência para com o que metemos no copo.

Sempre preferimos mostrar o rótulo em vez de questionar o que está por trás do rótulo… E como só alguns rótulos é que são dignos de exibição, a competência do vinho é cada vez menos importante.

Anda tudo à procura da perfeição no defeito. Eu prefiro continuar à procura do defeito na perfeição… E acho que faço bem.


Saúde,
Dr. Ribeiro

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Prova

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