Fonte de Gonçalvinho, Tinta Roriz 2010

A Tinta Roriz usada “sozinha” já me deu algumas provas inesquecíveis. Performances que muitos blends tidos como grandes não conseguem ter.

Pelo que me parece, não é uma casta assim tão adorada quando o objectivo passa por criar um monovarietal, já lhe ouvi chamar de “casta chata” e é por situações destas que eu tenho alguma dificuldade em lidar com esses termos, casta chata, vinho chato, etc.

Estes termos fazem parte de um grupo de chavões que entraram no léxico de provas e que agora se aplicam a tudo e mais alguma coisa, praticamente de forma transversal… Os chavões são um enorme perigo porque levam à generalização e a generalização, é o pior que podemos oferecer ao vinho português.

Enquanto consumidores, generalizar significa perder o espírito crítico, perder a vontade de arriscar no que não conhecemos, significa ficar à mercê das grandes máquinas de marketing que vão inquinando as nossas opções de compra.

Esta semana foi assim, uma semana pedinte e pedante, uma combinação notável que tem caracterizado o vinho português desde que me lembro, é terrível e parece piorar a cada ano. Não sei para onde isto vai, não sei mesmo.

Bem, mas voltando a este vinho e voltando ao tema Tinta Roriz. Será esta casta assim tão chata como já ouvi dizer?

A prova mais marcante que fiz de uma Tinta Roriz, foi com uma colheita de 2014, da Quinta do Vallado, foi talvez o melhor monovarietal de Tinta Roriz que eu já consegui provar até hoje e esse vinho, não é nem de perto dos mais caros monovarietais de Roriz que há em Portugal.

Há pouco tempo, um Quinta de Pancas de 1998, obviamente já com os efeitos do tempo em cima, conseguiu mostrar-se grande e mostrar-me também alguns traços que eu tinha já tinha sentido nessa Roriz do Vallado.

Agora, este Fonte de Gonçalvinho de 2010, trouxe também ele algumas particularidades comportamentais dessas Roriz de que não me esqueço.

Esta casta já me fez isto algumas vezes, parece ter uma enorme capacidade de nos dar uma prova muito certa, linear, homogénea de princípio ao fim, com conjunto a pender para zonas que misturam leveza e robustez, zonas que nos dão vinhos cheios mas serenos, onde há até detalhes de alguma delicadeza… Com excepção dos taninos, mas a esses já lá vamos. Parecem ser vinhos sem oscilações, a prova começa de forma cheia e vai cheia até ao fim, sem variar e sem cair em zonas de peso, opulência e profundidade.

O único atributo que vi variar um pouco nestes vinhos, foram os taninos. Foram bem perceptíveis na decantação destes vinhos, taninos que oscilam no tempo até chegar ao sítio certo. No início, estão algo contidos, depois, a meio, parece que há um “entusiasmo tânico”, por vezes até desproporcionado, e, já no fim da decantação, o tanino harmoniza com o restante conjunto, deixando um tinto completo no que lhe podíamos pedir e sereno na forma como nos mostra o que tem, cheio em boca e tendencialmente meigo no comportamento.

Este Fonte de Gonçalvinho de 2010, ainda foi a tempo de me mostrar tudo isto.

Já a Roriz de 1997, da Quinta do Portal, mostrou essa irreverência tânica associada a um conjunto com mais ímpeto, mais ousadia, facto que ajudou a que o conjunto fizesse sentido e fizesse uma grande prova.

Aroma com intensidade média/alta, tons balsâmicos e fumados de fundo a mostrar uma evolução sem dano, alguma fruta preta compotada, erva seca, herbáceo. Corpo macio, muito fino, gentil, estrutura relativamente completa em boca, bem ampla, centro de boca médio/alto e persistência média/longa, comportamento muito certo, sem variações, acaba como começa, cheio e fino. Acidez em bom nível e absolutamente ligada ao conjunto, taninos a precisarem da tal dose de oxigénio e depois sim, assumem a expressividade certa para o que este vinho é, sem exageros. Final médio/longo.


Saúde,
Dr. Ribeiro

Prova

  • 8.3/10
    Aroma - 8.25/10
  • 8/10
    Corpo - 8/10
  • 8/10
    Acidez, Taninos, Final - 8/10
  • 8/10
    Análise Geral - 8/10
8.1/10

Suporte para avaliação

10 – Magnífico
9 – Excelente
8 – Muito Bom
7 – Bom
6 – Acima da Média
5 – Razoável
4 – Aceitável
3 – Básico

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